Erasmus: Uma reflexão de quem foi para quem pensar ir

Desde o início do meu percurso académico superior (talvez um pouco antes até) tive, em mim, o desejo de poder ir ver outra Europa, outros mundos e culturas, outras formas de ser e estar na vida que não Portugal e Braga. Encontrei, no programa Erasmus, a oportunidade certa para dar este salto interior e, movido pela vontade de me descobrir nesse sentido, voei até terras polacas onde meses de aventura e peripécias me esperavam. 

  Como nas grandes epopeias que definem também um pouco o que é ser português, o início foi atribulado e ao chegar a Lodz (cidade de acolhimento) deparei-me logo com a situação caricata de perceber que o alojamento que tinha reservado não tinham as condições básicas para me sentir em casa. Quando digo básicas digo que os meus colegas de casa eram baratas. Até que eram simpáticas e acolhedoras visto que quando abri uma gaveta vieram logo cumprimentar-me, mas eram baratas e por isso ali não podia, nem queria ficar. Resumindo, logo no nosso primeiro dia, eu e o meu companheiro de viagem, não tínhamos uma casa onde ficar sem correr o risco de apanhar alguma doença pior que Covid.

Respiramos fundo e, como qualquer português em tempos de aperto, fomos a um bar, beber para esquecer, procurar respostas para vida. E o bonito dos Erasmus é que de facto as respostas estavam lá, bastava perguntar, porque alguém queria sempre responder. O drama inicial que me assombrou por momentos, deixou de ser um problema. No dia seguinte uma solução foi encontrada e, logo na primeira noite, já tinha feito contactos e amigos com quem mais tarde viria a partilhar momentos inesquecíveis. 

Os meses foram passando, e como em todo o mundo, o Covid veio estragar a festa, forçando ao encerramento de museus, restaurantes e fronteiras, impossibilitando viagens para outras geografias. Por momentos a experiência parecia estar prestes a ser arruinada e o pensamento “o que é que estou a fazer aqui?” pairava sobre a minha cabeça. Mas de Portugal também não chegavam boas notícias. Assim, na balança de “melhor sítio para se estar” ganhou a Polónia e ainda bem que assim foi. A verdade é que mesmo num mundo condicionado, lá se abriam portas para fazer coisas que em Portugal não me pareciam possíveis. Conheci algumas cidades emblemáticas da Polónia, o tão relatado campo de concentração de Auschwitz e ainda consegui viajar para dois países: Suécia e República Checa, onde mais uma vez as realidades eram distintas, mas não menos belas do que as do “jardim à beira-mar plantado”. 

Há uma certa liberdade difícil de descrever quando somos estrangeiros num país. Somos quase como um Alien, tal como o Sting descreve em “Englishman in New York”, onde a inocência misturada com o instinto de sobrevivência faz-nos cometer pequenas loucuras, que no nosso habitat natural não fazíamos, certamente. Desde o levantar caixa do buffet para pesar menos e assim combater os preços elevadíssimos suecos, pedir emprestado sem devolver uma bandeira de uma cadeia de minimercados muito conhecida na Polônia só pelo meme, ou até mesmo mandar vir com um motorista que nos queria cobrar mais do que o estipulado, porque achava que éramos turistas e que podia fazer de nós gato sapato. Todos estes pequenos momentos, todas as pequenas dificuldades que mais tarde se tornaram alegrias, é algo que levarei para sempre comigo até ao dia em que já velho e cansado, olhar para o passado nas chamas de uma lareira e sorrir por perceber que valeu a pena. 

Tu, aí desse lado, que podes estar em dúvida entre ir ou não ir, eu digo te: vai. Vai, porque não tens muito a perder a não ser a oportunidade de ir. Se tens vontade de conhecer algo novo, vai. Se tens vontade de te reconhecer, vai. Se tens a vontade de aumentar os teus limites e competências, vai. Tens um mundo novo à tua espera e à espera de te conhecer. Tens também, que estar preparado para o desconforto, porque às vezes ficas entregue à solidão dos teus pensamentos e isso pode ser assustador, mas descobri que é também no silêncio que ouves um pouco do que queres realmente dizer e fazer. Talvez, só quando terminada a experiência, saberás o quão incrível foi, mas a experiência será apenas tua e isso ninguém te pode tirar. Além disso, a Universidade do Minho proporciona um bom acompanhamento e faz questão de te ajudar sempre que precisares, o processo é de facto muito burocrático, mas exequível de uma forma clara. Atreve-te. 

José Pedro Vieira Martins, ACEntos nos i’s

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *